O banco de dados é tratado como commodity até o dia em que vira emergência
- Dennis Tavares

- há 23 horas
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Uma reflexão sobre invisibilidade, risco acumulado e decisões organizacionais que transformam infraestrutura crítica em urgência
Desde que iniciei minha jornada profissional, tenho a impressão de ver o banco de dados ocupar quase sempre o mesmo lugar, o do silêncio. Ele funciona, cresce, sustenta sistemas, relatórios, faturamento e decisões, mas raramente entra na pauta estratégica. Enquanto tudo opera, ninguém pergunta como, por quê ou até quando. Esse silêncio costuma ser interpretado como estabilidade. Eu aprendi, na prática, que ele é apenas invisibilidade.
Essa invisibilidade não é casual. Minha impressão sobre infraestrutura mostra que algumas camadas de um sistema tendem a desaparecer do campo de atenção justamente quando funcionam bem e, em alguns casos, até quando não funcionam bem. A infraestrutura vira pano de fundo, naturalizado e só é lembrado quando deixa de cumprir seu papel. O banco de dados segue exatamente esse padrão.

Essa percepção dialoga diretamente com o que Susan Leigh Star descreve ao tratar a infraestrutura como um artefato que, embora formalmente documentado, raramente é problematizado em suas formas, usos e informações. Para Star, a infraestrutura opera como um espelho do mundo social: ela sustenta práticas, orienta comportamentos e molda possibilidades, justamente porque permanece invisível enquanto funciona. Como ela observa, as infraestruturas da informática são quase totalmente invisíveis, mas ainda assim moldam a imaginação organizacional por meio de promessas otimistas sobre o futuro.
Quando isso acontece, o banco de dados passa a ser tratado como commodity. Algo intercambiável, previsível, reduzido a custo, contrato ou licença. Vejo isso com frequência quando discussões sobre banco de dados se resumem a valores, prazos e fornecedores, enquanto dependência, histórico, acoplamento e risco ficam fora da conversa. Talvez chamar de commodity seja um caminho mais confortável, pois simplifica o discurso e adia decisões difíceis.
O problema é que banco de dados real não se comporta como commodity. Ele carrega anos de decisões acumuladas, exceções de negócio, integrações frágeis e soluções improvisadas que viraram padrão. Quem já colocou a mão em produção sabe que o banco de dados é parte da história da organização. Tratar isso como algo simples não elimina a complexidade, apenas empurra o problema para frente.
De repente, em um dia qualquer, algo sai do esperado. Uma lentidão generalizada, um crescimento não previsto, uma auditoria, um incidente de segurança. Aquilo que era invisível se torna urgente. O banco de dados passa a ser chamado de “crítico”, como se tivesse mudado de natureza da noite para o dia.
Na minha experiência, a emergência nunca nasce nesse momento. Ela é apenas o ponto em que o risco acumulado se torna impossível de ignorar. Falhas raramente são eventos isolados, elas são o resultado de decisões sucessivas que aceitaram limites técnicos em nome de prazos, custos ou conveniências.
Quando o banco de dados vira emergência, ele não revela apenas um problema técnico. Ele expõe uma sequência de decisões organizacionais que optaram por não olhar para a infraestrutura. Os alertas foram normalizados, investimentos foram adiados, riscos foram assumidos silenciosamente até que o sistema fosse simplificado ao ponto de se tornar frágil.
Nesse intervalo, entre funcionar e falhar, alguém sustentou o sistema. Eu vi DBAs, arquitetos e times inteiros de sustentação manterem bancos de dados estáveis por anos, muitas vezes sem participar das decisões que aumentavam a complexidade e o risco. Cheguei à conclusão de que esse tipo de esforço tende a permanecer invisível enquanto é bem-sucedido.
Isso nos leva a um desequilíbrio recorrente, responsabilidade sem poder. Espera-se que o banco de dados esteja sempre disponível, mas evita-se discutir seus limites. Cobra-se estabilidade, mas posterga-se o investimento. Confia-se na operação, mas exclui-se a infraestrutura da estratégia. Isso não é um problema técnico, é organizacional.
Quando a crise finalmente aparece, ela costuma ser tratada como um evento isolado, algo a ser resolvido rapidamente para que tudo volte ao “normal”. O problema é que esse normal era justamente o estado de invisibilidade que permitiu o acúmulo do risco. Resolver o incidente sem mudar a forma como o banco de dados é percebido é apenas reiniciar o mesmo ciclo.
Para mim, o banco de dados não vira emergência porque falhou. Ele vira emergência porque foi tratado como commodity por tempo demais. Enquanto funciona, é invisível; quando para, se torna urgente. Entre esses dois estados, acumula-se o custo da ignorância técnica deliberada, este custo sempre chega, e quase nunca sem juros.
Reconhecer o banco de dados como infraestrutura crítica exige mais do que ajustes técnicos. Exige uma mudança de postura. Significa aceitar que aquilo que sustenta a operação precisa participar das decisões, e não apenas ser lembrado quando deixa de funcionar.
Referências:
Star, S. L. (1999). The Ethnography of Infrastructure. American Behavioral Scientist, 43(3), 377–391.
Anand, N., Gupta, A., & Appel, H. (Eds.). (2018). The Promise of Infrastructure. Duke University Press.




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